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Coordenadora de relações internacionais, profª Fabiola Oliveira, analisa atual cenário internacional atual e pós-Covid-19

por Angela Rodrigues publicado 22/07/2020 08h00, última modificação 22/07/2020 18h37

Os resultados das mudanças de comportamento, de relacionamento, formas de trabalho e outras, criadas e adotadas com a necessidade de isolamento social, só poderão ser conhecidos após o fim da pandemia. No entanto, muitas reflexões sobre esse tema são compartilhadas e analisadas diariamente. 

Para debater sobre o cenário no campo das relações internacionais, a professora Fabíola Cristina Ribeiro de Oliveira, coordenadora dos cursos de relações internacionais e de ciências econômicas da Unimep concedeu entrevista ao jornal Gazeta de Piracicaba. A matéria foi publicada no dia 24 de junho.  Confira a entrevista na íntegra:

Jornal Gazeta de Piracicaba – Estamos vivendo sob uma pandemia e, em breve, haverá a pós-pandemia. O conceito de "sociedade de riscos" (do sociólogo alemão Ulrich Beck, no livro Risikogesellsch , de 1986) ganhará mais relevância?
Profª Fabiola Cristina Ribeiro de Oliveira – Certamente, o conceito de “sociedade de risco” do sociólogo alemão Ulrich Beck está ganhando muita relevância neste momento, marcado por uma pandemia mundial. Em suas obras, as pandemias foram apontadas como um dos grandes riscos da modernização, especialmente, em virtude da degradação ambiental, com a redução das florestas e o aumento expressivo da urbanização, e do desenvolvimento dos meios de transportes como o sistema aéreo, que encurtou distâncias, interligou os países e facilitou o deslocamento de milhares de pessoas diariamente pelo mundo.


Gazeta – Os países poderão ganhar outras classificações econômicas, diplomáticas, e políticas após a pandemia? Por exemplo, países em que seus governos agem de forma negacionista, ou quase negacionista, poderão ter mais dificuldades nas relações internacionais?
Profª Fabíola – Governos negacionistas já estão tendo que lidar com as consequências de suas decisões de não enfrentamento efetivo da pandemia. A União Europeia, por exemplo, fará uma reabertura gradual para visitantes advindos de países que estão fora do bloco, mas restringirá a recepção aos países autorizados. Haverá uma lista de países autorizados com base nos critérios de controles das infecções da Covid-19. Os brasileiros, por exemplo, certamente serão vetados nesta atual conjuntura, já que ainda estamos com a curva de contaminação em alta.


Gazeta –
Como o Brasil é atualmente observado na comunidade internacional, nesse momento em que o presidente se mostra avesso às medidas de segurança sanitária e mergulhado em crises políticas internas, que mexem com a democracia?
Profª Fabíola – A recusa de recomendações sanitárias da Organização Mundial da Saúde (OMS), adotadas até mesmo por lideranças que antes as rejeitavam, como o primeiro ministro inglês, Boris Johnson, e o presidente norte-americano, Donald Trump, tem isolado o governo brasileiro. Algo sem precedentes nas relações diplomáticas deste país. A imprensa internacional tem criticado duramente a postura do presidente Jair Bolsonaro. Em abril, o editorial do jornal britânico The Guardian já apontava que “o presidente coloca os brasileiros em risco". No mesmo período, a revista norte-americana The Atlantic afirmou que Bolsonaro "é o líder negacionista do coronavírus". No mês passado, foi a vez do Financial Times apontar que "o populismo de Jair Bolsonaro está levando o país para um desastre". Essas análises, de importantes veículos da imprensa internacional, estão ficando cada vez mais recorrente.


Gazeta – Do ponto de vista da globalização, haverá uma nova ordem nos negócios e turismo?
Profª Fabiola – Creio que as lideranças políticas e os setores empresariais já começam a pensar como o mundo se organizará quando esse problema de saúde pública for vencido por meio de tratamento ou vacinas. Isto nos colocará, possivelmente, numa nova ordem econômica no sistema internacional. Há indicativos de que as nações passarão a depender menos do governo norte-americano. A maior economia do mundo, que hospeda as melhores universidades do mundo, com os pesquisadores igualmente mais respeitados, não conseguiu atender adequadamente a sua população, tendo alcançado o maior número de contaminados e mortes até o momento.

Já do ponto de vista dos negócios domésticos, haverá a necessidade de reinvenções. Muitos setores terão que se adaptar aos novos modelos de negócios, como os de startups, com a necessidade de acesso ao crédito e com exposição de seus produtos e/ou serviços na internet. Já bares, restaurantes, cafeterias, casas de teatros, hotéis, setores estes ligados ao turismo profundamente impactados pela pandemia, passarão por grandes modificações. Nos serviços de hospedagem, haverá novos protocolos de limpeza, aos moldes dos padrões de higiene de espaços hospitalares. Bares e restaurante terão que impor medidas de distanciamento, tendo que operar com uma capacidade bem menor do que antes da pandemia. As vendas pela internet precisam se aprofundar. As produções teatrais também estão se deslocando para a internet. Hoje é possível assistir um monólogo com atores e atrizes de sucesso, por meio de plataformas digitais. Isto será uma tendência que veio para ficar, mesmo com o retorno dos espetáculos presenciais. 


Gazeta – Em relação aos prejuízos urbanos, a pandemia pode se equipar a uma das guerras mundiais?
Profª Fabiola – Existe sim um discurso simbólico e de retórica de guerra, tais como “estamos em luta”, “estamos em combate ao inimigo invisível”, novas instalações de saúde foram chamadas de “hospital de campanha”. Tudo isso está ligado ao esforço de enfretamento emergencial que deve ser dispendido para salvar vidas. Note-se que, este esforço pode levar à formação de alianças entre as nações, assim como aconteceu nas grandes guerras, a fim de que possam decidir em conjunto quais são as soluções mais eficientes para a superação do momento de vulnerabilidade. Mas, neste caso, pode-se dizer que a pandemia ainda é o enfrentamento comum aos países, não havendo portanto, confronto direto entre grupos de nações. Isto não significa que ela não possa desencadear outros danos e quebras de alianças e acirramento das disputas entre as grandes potências no cenário pós-pandemia. Se o pós-guerra é sinal de reconstrução, o cenário incerto do pós-pandemia pode ser o de desfragmentação e de disputas globais.

 

 

Entrevista: José Ricardo Ferreira / Gazeta de Piracicaba
Edição: Assessoria de Comunicação Unimep
Fotos: banco de imagens Pexels / Anna Shvets
Última atualização: 08/07/2020