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Docente do curso de história contextualiza sobre as distintas pandemias enfrentadas pela humanidade

por Angela Rodrigues publicado 27/03/2020 02h00, última modificação 31/03/2020 17h28

 

Ao longo da história, distintas epidemias e pandemias foram capazes de assustar a humanidade em datas e nações distintas; muitas delas, foram sérias ameaças às populações ao redor do mundo. Atualmente, o mundo enfrenta e combate o coronavírus, que se tornou um problema mundial de saúde pública.

Para contextualizar sobre as distintas epidemias mundiais e o impacto que causaram, e analisar as lições que elas deixaram à humanidade em diferentes momentos históricos, o professor Raimundo Donato do Prado Ribeiro, docente do curso de história da Unimep concedeu entrevista especial ao jornal Gazeta de Piracicaba. A reportagem foi veiculada no último domingo, dia 22. Confira a entrevista concedida pelo docente (abaixo), na íntegra:

Gazeta de Piracicaba – Qual foi a maior epidemia que a humanidade já enfrentou?

Prof. Donato Ribeiro – Desde a antiguidade clássica há registros e a presença de epidemias na história; por exemplo, peste negra, cólera, tuberculose, varíola, gripe espanhola, tifo, febre amarela, sarampo, meningite, malária, dengue, aids, H1N1, dentre tantas outras  que se fizeram presentes em alguns momentos da história. O que é “maior” para história é muito relativo, o maior ou menor faz sentido para o Guinness Book, não para os historiadores. Podemos falar em impactos e, mesmo assim, eles são muito distintos em cada tempo e sociedade e não dá para serem mensurados. A chegada do europeu na América provocou o desaparecimento de uma série de nações nativas, mas também estrago significativo na natureza pela introdução de espécies alienígenas, isso foi involuntário em função do desconhecimento acerca da dinâmica da natureza. Deslocamentos sempre existiram no mundo desde sempre, hoje, em função dos atuais meios de transporte esse impacto é muito mais rápido e contribui para essa sensação imediata de caos e de fim de mundo. No entanto, considero a pior epidemia aquela alimentada pelo ódio, pela desinformação, pela xenofobia, pelo preconceito e pelo descaso dos poderes públicos com a saúde e a educação, mas, sobretudo, pela epidemia da ignorância.

Gazeta – Por que o novo Coronavírus surgiu?
Prof. Donato –
Não sou biólogo, me perdoem qualquer ignorância nessa resposta. Não acredito em geração espontânea, esse vírus como outros tantos apresentados como inusitados suponho que sempre estiveram circulando, ou sofreram mutações, talvez de forma restritiva ou circunscritos a alguns lugares sem grandes impactos. Suponho que a degradação do meio ambiente e o aquecimento global, tão menosprezados por mentes obtusas vão colocar desafios similares ou piores que esse para o futuro. No entanto, temos claro que, de acordo com alguns registros históricos, em algumas dessas epidemias, essas foram enfrentadas a partir de uma série de medidas profiláticas. Outras epidemias com certezas aparecerão, mas uma lição alguns países aprenderam em termos de investimentos na saúde pública, educação, informação e dispositivos sanitários que preservem a salubridade cotidianamente (saneamento básico). Acho que a questão não é porque o coronavírus surgiu, mas sim quais são os mecanismos constituídos e protocolos definidos previamente por cada país para esse tipo de situação? Recentemente, tivemos o H1N1, a dengue está por aí, o que efetivamente aprendemos? E, com certeza, não serão teorias conspiratórias ou a banalização vulgar desse desafio que trará apaziguamento para essa crise, mas sim informação e educação a todos. Precisamos nos entender como parte de uma comunidade constituída de diferenças, mas que cada um cuida do outro.


Gazeta – Os vírus fazem parte da história da humanidade? Qual influência tiveram na economia, política e comportamento das sociedades? Qual epidemia mais influenciou a humanidade?

Prof. Donato – Sim, não só os vírus, mas também as bactérias, os protozoários, os vermes, os homens e todos os demais seres vivos. Com relação à segunda pergunta, depende da extensão e das características de cada epidemia e, também, da cultura e da sociedade que a atinge. No campo da economia, temos situações da desestabilização ou enfraquecimento de alguns setores e até os que se aproveitam para lucrar e alavancar suas áreas de atuação. No mundo do mercado econômico sempre tem setores perdendo e outros ganhando. Por exemplo, o aquecimento das vendas de álcool em gel e máscaras cirúrgicas neste momento, ou até mesmo seitas religiosas de caráter duvidoso que, desdenhando dessa pandemia, atraem incautos.  No campo do conhecimento, o que era considerado mal num dado momento; a partir de determinados manejos e intervenções passou a ser considerado solução para outros tantos males. Ou seja, tudo isso é muito relativo, pois enquanto não tivermos clareza do sentido de interdependência que nos faz habitar esse planeta de nada adianta agirmos somente em casos de pânicos e pavores. Nossa responsabilidade tem um antes, um durante e um depois; e no caso do depois considero o mais importante não vacilar com a saúde pública, educação e saneamento, preservando, assim, o sentido de coletividade.

Uma coisa é certa, sempre houve aqueles que quiseram se valer do desconhecimento e da ignorância para lucrar ou abusar da boa-fé em meio à falta de informação e vulnerabilidade. Da mesma forma, no campo político aparecem aqueles que apostam na importância da comunidade que, mesmo nas diferenças, todo mundo cuida de todo mundo e/ou redefinem políticas de saúde pública, prevenção etc. Outros, apostam na cizânia e fazem desses momentos de caos um palco para vaidades e seus projetos pessoais de poder, óbvio que tudo em nome do ‘povo’.


Gazeta – A devastação do meio ambiente e as mudanças climáticas vão fazer com que mais epidemias ou pandemias surjam?
Prof. Donato –
Não tenho dúvidas que isso será inevitável, mas não dá para mensurar a extensão ou a gravidade. Reitero que educação e informação são tudo para dar sentido à preservação ambiental e hábitos de higiene tão simples e tão definidores para a propagação ou não de uma epidemia. Penso que temos que sair dessa lógica equivocada que somos os senhores do planeta Terra, falhamos totalmente; perdidos em nossa ganância, no consumo desenfreado e, tantas vezes, desnecessários. Essa conta está ficando cada vez mais alta e uma hora a fatura chega e com juros altos. Vide os registros de imagens de satélites feitos na China onde se observa a poluição vista antes e depois da quarentena imposta pelo coronavírus. Penso que isso quer dizer alguma coisa para o mundo ou não?


Gazeta – Em um mundo globalizado, como se proteger das grandes epidemias como a Aids, ebola, corona etc.?

Prof. Donato – Objetivamente nada, subjetivamente apostar na educação e na informação. Menos redes sociais e mais leituras e informações. Honestamente, espero que ao final disso tudo fique uma lição da falibilidade da existência, o quanto somos vulneráveis nesse mundo tão mal cuidado e desprezado em nome do crescimento e desenvolvimento econômico a qualquer custo. Sustentabilidade é vida, é coexistência, é futuro; é um olhar ou uma bandeira que deveria comportar em qualquer campo ideológico. Um ser, não visível a olho nu, talvez possa repor para alguns de nós nosso lugar de habitante do mundo e o quanto somos vulneráveis. A globalização pode nos aproximar de um mundo melhor, ela só se traduz como a “culpa que tudo de ruim que acontece no mundo” por governos com tendências fascistas, que flertam com a ignorância em grande escala e não valorizam a história como campo de debate e conhecimento do passado para problematizar o presente.

O mundo globalizado não produz essas grandes pestes, no máximo facilita a disseminação. No entanto, o estrago produzido por essas epidemias responde muito mais ao descuido com a preservação ambiental, à falta de saneamento básico, à falência ou ao esvaziamento do sistema de saúde, à inoperância ou negativa dos responsáveis pelos poderes públicos em efetivamente reconhecer o problema e, também, reitero, à ausência de sentido de comunidade. Se já observo estarrecido a ausência de álcool em gel nas prateleiras do comércio, não apenas em função da alta demanda, mas também em função de alguns indivíduos fazerem estoques; por outro lado, não tenho palavras para expressar o que significa a recomendação de lavar bem as mãos quando uma parcela significativa da população não dispõe de acesso à água tratada e mesmo quanto ao nosso  SUS, que, há algum bom tempo, vem trabalhando no limite dos seus recursos humanos e materiais.

 

Entrevista: José Ricardo Ferreira - Gazeta de Piracicaba
Fotos: acervo Unimep e banco de imagens
Última atualização: 25/03/2020