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Docentes analisam revoltas e guerras nos países árabes

por Universidade Metodista de Piracicaba — publicado 31/03/2011 15h22, última modificação 26/04/2016 18h47

Os principais motivos dos atuais conflitos nos países árabes e o enfraquecimento do imperialismo norte-americano foram destaque nas entrevistas concedidas à equipe de reportagem do Acontece On-line pelos professores  de ascendência árabe Lejeune Mirhan e Mohamed Habib.  Os dois participaram do debate Revoltas Populares nos Países Árabes, promovido no Teatro Unimep, na noite de ontem, 31, pelo coordenador do curso negócios internacionais da universidade, Cristiano Morini. Mais de 600 pessoas participaram do evento.

Mirhan é professor arabista (que estuda a língua e a civilização árabe), e também foi docente da Unimep entre os anos de 1986 e 2006. Já Mohamed Habib é docente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pró-reitor e vice-presidente do Instituto de Cultura Árabe, em São Paulo. Confira os melhores trechos das entrevistas: 

Acontece Unimep – Qual é o impacto que essas revoltas vão causar ao mundo?
Lejeune Mirhan – A democracia, hoje, é um princípio que tem tudo a ver com o respeito ao ser humano e à dignidade humana. Toda vez que há respeito na dignidade humana, se está mais próximo de uma cultura de harmonia social. E essa cultura de harmonia social tende a durar muito mais e a dar qualidade de vida melhor ao cidadão. Na harmonia social, é possível fazer acordos e parcerias num ambiente muito mais agradável, do que num ambiente ou num mundo nos quais há conflitos e atritos. Então, se o mundo buscar a construção de uma cultura de paz, e partir para a democracia, tenho certeza de que o mundo inteiro terá grandes benefícios. Nesse sentido, haverá menos exclusão social, injustiças, preconceitos, menos sofrimentos de algumas categorias da sociedade como as minorias. 

Mohamed Habib – Estamos vivendo uma revolução no mundo árabe, que alguns autores chamam de revoltas e rebeldias, mas acredito que é uma revolução em curso. Esta é a primeira tese. A segunda tese é uma luta para o mundo árabe caminhar com as suas próprias pernas, sem a ingerência do imperialismo norte-americano e do sionismo israelense (movimento político e religioso judaico iniciado no século 19, que visava o restabelecimento, na Palestina, de um estado judaico, e que se tornou vitorioso em maio de 1948, quando foi proclamado o Estado de Israel). 

Acontece Unimep – Quais são os reflexos que essas revoltas e guerras civis trarão ao Brasil e ao nosso cotidiano? 
Mirhan – O Brasil possui grandes negócios com os países árabes. Alguns dos reflexos são acordos comerciais, intercâmbios culturais e acadêmicos científico-tecnológicos. Além disso, o mundo árabe precisa de empresas brasileiras na construção civil, ou seja, para o país, em termos econômicos será um excelente negócio. 

Habib
– Do ponto de vista econômico, para o Brasil, o impacto será pequeno, pois nos oito anos de governo Lula, o comércio do Brasil com o mundo árabe foi pequeno. Em valores, eram de um a dois bilhões de dólares. Mas hoje, já atinge 10 bilhões, ou seja, cresceu muito. Do ponto de vista político, terá um certo impacto, pois a presidente Dilma Rousseff já defendeu o cessar fogo na Líbia. O Brasil se aproxima do bloco dos chamados países emergentes e dos países que procuram criar uma alternativa à dominação americana. Já o cidadão comum, do interior do Estado de São Paulo, em Piracicaba, talvez não vá sofrer um impacto muito grande. Mas a curto e até a médio prazo, por meio das relações políticas, teremos muitas novidades no mundo árabe. 

Acontece Unimep – Essas revoltas sinalizam um enfraquecimento do poder ocidental e o surgimento de novos líderes? 
Mirhan – Esses levantes populares tendem a dar à sociedade civil, o que ela tem direito em termos de espaço para tomar decisões. Passou o tempo no qual um decide por todos, estamos no tempo onde o todo participa e toma suas decisões pelo bem da própria sociedade. Então, falamos de uma mudança da qual chega de acreditar que alguém sozinho pode salvar uma pátria. Esse é o papel da sociedade, da democracia. Esse é o papel dos parlamentos e dos verdadeiros representantes da sociedade. É o verdadeiro modelo coletivo de gestão de um país, e é disso que o mundo precisa. 

Habib - Claro, sem dúvida nenhuma. Hoje, está em jogo o fim de um mundo unipolar, que começou há exatamente 20 anos, em janeiro de 91, com o Bush pai e depois com o filho. Nesses últimos 20 anos, vivemos um mundo unipolar. Não tinha um equilíbrio. Hoje, se busca um mundo multipolar: o Brasil é um pólo, a China, o Japão, a União Européia também são outros pólos. Então, essas mudanças lá no Oriente Médio vão ajudar a fortalecer esse mundo multipolar e acabar com essa hegemonia dos Estados Unidos. Se não acabar, vão enfraquecer profundamente. Barack Obama, eleito com muita esperança pelo povo, hoje está decepcionando. Além de ser presidente dos EUA, ele também é chefe do império norte-americano, e esse império está sendo contestado no mundo inteiro.

Entrevista:  Angela Rodrigues
Edição/jornalista responsável: Celiana Perina 
Fotos: Fábio Mendes
Última atualização: 01/04/2011

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